quarta-feira, 26 de novembro de 2008

LUCÍOLA: A construção da figura da prostituta em José de Alencar


Por Ayla Nayra Luz Lima*


RESUMO

Este artigo tem como objetivo mostrar como a personagem Lúcia foi construída no romance Lucíola, que José de Alencar criou para fazer uma crítica à sociedade da época em que viveu. É um romance que conta a historia da mocinha que é expulsa de casa, revelando-se uma mulher sedutora para garantir sua sobrevivência, e que depois encontra o amor sincero de um jovem (Paulo), com quem se casa, mas devido à mesquinhez da sociedade, esse amor não vai ser totalmente vivido. O cenário das personagens é o Rio de Janeiro do século XIX, em que Lúcia e Paulo são representações dessa época, expressando a visão de Alencar sobre a figura da prostituta.

Palavras-chave: José de Alencar, romance, sociedade, amor.


INTRODUÇÃO

Lucíola é um dos romances urbanos da trilogia de José de Alencar que retrata a sociedade carioca de sua época, apontando aspectos negativos da vida urbana e dos costumes burgueses. A história se passa em 1855, época do Segundo Reinado, em que a urbanização da cidade do Rio de Janeiro se transformava em corte. É narrado em primeira pessoa, sendo através do narrador que Alencar vai fazer críticas aos conceitos morais existentes na sociedade.
Nesse romance, o autor uniu características românticas e realistas na personagem Lúcia. É uma mulher que vive entre o amor (modelo romântico) e a libertinagem (modelo realista). No início da obra é uma prostituta de luxo, mas que depois se torna uma mulher frágil, que vai precisar da ajuda do amor para vencer os obstáculos que a vida colocou no seu caminho. Esse tema da prostituta regenerada já era conhecido na literatura francesa, em “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas Filho, em que as personagens são muito parecidas com as de Alencar, daí pode ter surgido sua inspiração para escrever Lucíola.

A CONSTRUÇÃO DA PERSONAGEM

A prostituta sempre foi uma figura polêmica, que nesta obra o autor a apresentou como uma contradição do corpo e da alma, da sociedade e do ser humano, construindo sob essa visão a figura da protagonista do romance Lucíola. Com um perfil idealizado de figura feminina, tinha uma beleza sobrenatural e extrema sedução. Era uma mulher a frente de seu tempo, forte como as demais prostitutas, que apesar de vivenciar preconceitos a todo momento, tentou superá-los. Podemos ver essa idealização em um trecho que Paulo fala:


É preciso ter como Lúcia a beleza, a sedução e o espírito que enchem uma sala; a mobilidade e a elegância que multiplicam uma mulher, como o prisma reproduz o raio do sol por mil facetas;(...) (ALENCAR, 1998, Pg. 53)



Nessa obra, Alencar faz uma denúncia à rejeição da sociedade para com as prostitutas, que as julga como mulheres impuras, mas que delas se aproveitam em benefício próprio, continuando a mantê-las. Até mesmo Lúcia que sempre teve consciência da vida que levava, também assume os preconceitos sociais contra a prostitutas, quando abandona a sua vida de libertinagem e se pune pelos pecados que cometeu, esperando a remissão com o perdão de Paulo, isso é visto em um trecho da obra em que Lúcia contava a Paulo sobre sua vida:


Lúcia escondeu o rosto nos meus joelhos e emudeceu. Quando levantou a fronte, implorava com as mãos juntas e o olhar súplice. O quê? O perdão de sua primeira falta?
(...)
Eis a minha vida. O que se passava em mim é difícil de compreender, e mais difícil de confessar. Eu tinha-me vendido a todos os caprichos e extravagâncias; deixara-me arrastar ao mais profundo abismo da depravação; contudo, quando entrava em mim, na solidão de minha vida íntima, sentia que eu não era uma cortesã como aquelas que me cercavam.(...) (ALENCAR,1998, Pgs. 109 e 111)


Na protagonista desse romance, existe simultaneamente duas pessoas: Maria da Glória, uma menina simples, doce, ingênua; e Lúcia, uma prostituta estravagante e sedutora. Essa ambigüidade na personagem, mostra uma dualidade de caráter, apresentando desse modo a capacidade de colocá-la ora como anjo, ora como demônio. É possível perceber essa ambigüidade num trecho em que Paulo e Lúcia conversam no teatro:


Notei no tom de Lúcia durante o resto desta conversa uma diferença extraordinária com o modo singelo e modesto que ela tinha em sua casa; agora era a frase ríspida, incisa e levemente embebida na ironia que destilava de seus lábios, e cujas gotas a maior parte das vezes salpicavam a ela própria.(...) (ALENCAR,1998, Pg.32)


Outra marca significativa nas obras de Alencar, é o uso da metáfora, utilizada em Lucíola para fazer relação entre dois nomes –Lúcia e Lúcifer–, mostrando semelhança entre os mesmos. Tal como Lúcifer, Lúcia era como um anjo que ao cair na vida da prostituição desceu do céu ao inferno, passou de pura para libertina, e que agora vivia de seduzir os homens. Pode-se ver essa ligação entre os dois em um fragmento do livro:


–Como trata-se de nomes, eu também proponho uma mudança, bocejou Rochinha. Em lugar de Lúcia –diga-se Lúcifer.
–Quem não sabe que eu sou anjo de luz, que desci do céu ao inferno? (ALENCAR,1998, Pg.38)


Além da ambigüidade e da metáfora, o autor faz uso de sufixos diminutivos com valor afetivo, utilizado como forma de adicionar às suas personagens femininas uma situação de fragilidade, muito visto no movimento romântico. Mas em Lucíola, esse mesmo processo teve outra função: o nome Lúcia é a forma diminutiva de seu nome –Lucíola– e foi utilizado para ficar conhecida como uma cortesã. Nesse caso, o diminutivo expressou um pensamento de desproteção que tornará o termo Lucíola atraente.

Alencar levava em conta as razões do coração, sempre procurando defender suas personagens, refazendo a sua dignidade e redimindo-as de seus mal feitos. E nesse romance, o amor e a morte de Lúcia representam a purificação da alma e realização plena do amor, não significando, assim, um desfecho trágico. Ele não se restringiu aos pensamentos da sociedade, construindo Lúcia como uma prostituta diferente que amou e foi amada, sendo admirada por Paulo desde a primeira vez em que a viu:


A lua vinha assomando pelo cimo das montanhas fronteiras; descobri nessa ocasião, a alguns passos de mim, uma linda moça, que parara um instante para contemplar no horizonte as nuvens brancas esgarçadas sobre o céu azul e estrelado. Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância.(...) (ALENCAR, 1998, Pg.14)


Apesar das críticas sofridas por retratar um problema social como o da prostituição, que a sociedade do século XIX conhecia, mas preferia ignorar, Alencar contribui muito com inovações estilísticas, servindo como base para outros autores. Por isso, é considerado um dos maiores romancistas da literatura brasileira e o pioneiro em inovações do século XIX.


* Aluna do curso de letras da Universidade Federal do Piauí, Campus Senador Helvídio Nunes de Barros.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALENCAR, José de. Lucíola. 24 ed. São Paulo: Editora Ática, 1998.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda [et.al], 1910-1989. Minidicionário Século XXI Escolar: o minidicionário da língua portuguesa. 4 ed. Rev. Ampliada. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

SOUZA, Jair Gomes de. Iracema, Aurélia e Lucíola: amor e honra no perfil moral e social feminino das personagens alencarianas. CES-JF, FIJ-RJ.

REBELLO, Janaína Fernandes. A multiplicidade de enfoques sobre o amor na narrativa brasileira. Departamento de Letras Vernáculas. Tese de Doutorado apresentada à coordenação dos cursos de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1º semestre de 2006.

Um comentário:

laryssa disse...

cadê o climax de lucíola??????